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Crônicas de Valéria Áureo
Postada por:  Redação (Carmen Lúcia Marini Vieira Júlio),  em  20/10/2020 às 20h44
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ADEUS

20/10/2020 às 20h44

 Valéria Áureo

Agora que estavam tão próximos do fim, mais apegados estavam um ao outro, sentados lado a lado, no pequeno espaço de frente do quintal. Olhavam horas a fio a mangueira e a verdejante videira, fiscalizando cachos de uvas destinados aos netos de fim de ano. No extremo da idade, já tão velhinhos, se assemelhavam a duas crianças de mãos dadas, assentados depois de uma estonteante ciranda. Muito mais eles desejavam o tempo para o recomeço, cada vez que a memória trazia à tona lembranças da infância. Às vezes, passeavam enlaçados pelos dedos no caminho que geminava as duas casas, quando nenhum dos filhos pudesse flagrar aquela ingênua intimidade. Seco e poeirento era o quintal e as folhas da pequena parreira sob o pé de manga, que lhes servia de jardim. Que fossem muito doces as mangas e as uvas, negadas aos passarinhos e acauteladas para cada um dos filhos seus... Também lhes ambicionavam doce destino.

Secos já estavam os olhos espremidos em rendas de rugas que os faziam pequenos, pequenos e melancólicos... À tardinha a escada que levava ao segundo andar servia de bancos para os gatos e os vasos de antúrios. Quando o sol era um pouco menos quente repartiam ali um café que ele preparava para ela, porque era silencioso de palavras o amor que ele lhe tinha. Era feito de pequenos gestos recentes, aprendidos na velhice, quando enfim ele pode descobrir que mais do que as mágoas, tinha sobrevivido um sentimento perene, acobertado vida inteira. 

Viviam juntos havia mais de sessenta anos. Já não se podia dizer que eram duas criaturas, pois que nada sabiam ou podiam um sem o outro; nem pensar, andar, falar, sorrir ou haver o mundo. Ele trabalhara com a luz, sol a sol, noite a noite, fugindo nos desejos e nos sonhos para lugares em que ela não o acompanhava. Costumava evadir-se ao encalço dos lambaris do rio Formoso, porque ali se deixava carregar água abaixo, enquanto desaguava suas dores. Ela cuidara dos filhos, parira quatorze, perdera seis para a natureza, por destino, e também habitara nostalgias que só ela conhecera. Nesse tempo ambos andaram afastados de si, tal a dureza da vida, caminhando cada um o seu caminho. Mas sempre lado a lado, apesar de tudo. Quando ele queria, deitavam-se juntos. Quando não, ela dormia no seu lado da cama, sossegada, enrodilhada constantemente como gato de estimação em borralho. Nunca se separaram. Nem mesmo quando a desavença foi maior, ou quando quase todos partiram. Mesmo os filhos.

Agora, os dois, ali, à beira da tarde, pensavam que mesmo em meio à solidão, a vida podia ser boa e bela. Mas nada falavam, porque já haviam se habituado aos longos silêncios. Ou ele falava, gritava e ela ouvia e silenciava. Longe, apenas o canarinho cantava acima da saudosa gritaria de crianças, que tinham crescido. No mais o silêncio para sempre.

Antes da noite eles dormiam. Um dia e outro e outro e viram passar o tempo como se fosse uma tempestade forte e, até então, se tinham de mãos dadas, quando os filhos não olhavam invadindo essa timidez. Aos poucos souberam que haviam de se deixar. Souberam que, em breve, seria a sua hora. Hora única. De cada um. Que, depois de toda uma vida lado a lado sem quase se falar, seguiriam separados, quando bem o decidisse Deus. Quando pensavam nisso, prometiam se reencontrar...

Mais uma vez, para eles, inúteis eram as palavras, pois se adivinhavam, mutuamente, os pensamentos e o temor de saber quem iria partir primeiro.

Quando a noite caiu e uma imensa lua clareou a terra, se deixaram ficar, mais um pouco, ali fora, povoados pelo sentimento da separação.

Assim que ele se foi, mais silenciosa Wanda ficou... Ela ficou esperando uma lua inteira brilhar nos seus olhos azuis, trazendo-o de volta.

 

In: Pretexto Para Tomar Vinho

 

Autora: Valéria Áureo



 






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