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Crônicas de Valéria Áureo
Postada por:  Redação (Carmen Lúcia Marini Vieira Júlio),  em  20/07/2020 às 19h28
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Navegarei eternamente - O Canto das Águas

20/07/2020 às 19h28

Valéria Áureo 

Navegarei eternamente nesse rio, perseguindo a leveza da rústica matéria, querendo ser mais do que o animal que o contempla, mais do que o bicho que o visita, mais do que o peixe inquieto que o adorna e habita, mais do que a planta que o circunda, mais do que o pescador que o observa, mais do que o pássaro que o sobrevoa. Querendo ser mais, eu navegarei...

Navegarei mais e muito mais de mim, nas águas dos meus olhos afogados no encantamento de te ver. Navegarei nesse rio que me reflete n’água, espelhando nostálgico desejo de querer ser parte de ti, partir afluente teu, teu leito, tua foz, teu nascedouro, para te proteger... Rio que me liberta e me aprisiona. Circularei pela margem silenciosa de teu capim e pedregulhos, pela ordem natural das coisas depositadas à tua margem, composição e decomposição de teus extremos e de meus limites; moldura de teu leito e de meu caminho, em possíveis arremates e formas de ser.

Corre eternamente a tua água que não se interrompe, enquanto eu, inconstante, esqueço-me de fluir por teus labirintos, por tuas cavernas e por segredos que nunca alcanço, perdido na tua superfície ... Perco-me no teu céu, no murmúrio de bátegas sutis de ondas a se repetirem, repartindo-te. Eu, repito-me na tua trajetória, apaixonado por meu rio, sob a dor de teu cristal partido, do teu peixe aprisionado e o anzol. Vergo-me sob o peso dessas tuas águas comprometidas com outras águas do mar. Sozinho, a perseguir-me corre o rio, porque dentro de mim repousa e flui.

Trago no coração o Rio Pomba, como Mário de Andrade trouxe o Tietê, no seu último canto, no seu testamento poético, onde medita sobre a própria existência e sua obra, indagando sobre a aspereza e a indiferença do mundo, querendo saber se haveria vida melhor, prenunciando seu último mergulho. Parece que de seu rio recebeu o alento do último canto. Eu, sozinho, quero a primeira melodia, a construir-me homem ribeirinho, nascido para o poema e suas águas, afogar-me só em palavras, para te dizer que amo-te rio... Eu, sozinho, quero sobreviver da profundeza de teus vórtices, antevendo só a vida. Quero de ti o primeiro sonho sem acordar, o primeiro mergulho sem afogar-me, o primeiro amor sem me perder.

Trago no meu coração o Rio Pomba, como Manuel Bandeira trouxe o seu Capiberibe, no Recife, onde teve seu primeiro alumbramento, o primeiro corpo nu, o primeiro coração parado... Eu, sozinho, quero ter do meu rio o primeiro coração batendo forte, a primeira arritmia, a primeira distância percorrida, a primeira volta para casa.

Se quiserem saber do meu amor por ti, meu rio, resoluto sairei a percorrer estradas, tentando explicar-te, tentando recolher-te num copo de águas cristalinas. Eu, já acostumado em encontrar Pessoa a proclamar seu rio em Portugal, e outras pessoas e seus rios, quis carregar-te inteiro no meu coração brasileiro, pois temo ver-te secar e ressecar-me. Temo morrer da sede de não mais poder beber de tuas águas.

Aprisiono-te, meu rio, em papéis, em letras, para preservar-te água e fluxo, correnteza e corredeira, redemoinho e movimento, debilitado no teu limo, teu seixo perdido e no meu cansaço de perder-te, quando não te descrevo.

Não te abandono, meu rio, porque rio também sou. Carrego folhas caídas, carrego eternas paisagens, a mesma viagem pelo mesmo caminho, a mesma chegada, a mesma acolhida. Carrego mágoas como tu carregas águas profundas. Sigo pelas mesmas curvas que tu persegues. Como rio, me transformo a fazer-me navegável.

Se quiserem saber do meu amor por ti, resoluto sairei a navegar-te só.

Onde desaguAR-TE rio, se distante de ti o oceano, senão em outro rio, em outro rio, em outro rio, em mim?

Autora: Valéria Áureo






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