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Saúde
Postada por:  Redação (Carmen Lúcia Marini Vieira Júlio),  em  28/10/2019 às 18h57
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Saúde Crônica: Relato da dor de quem ainda vive, mas deixou de existir

28/10/2019 às 18h57

 Repórter Janary Bastos Damacena

Alguns anos atrás fui pautado para escrever uma reportagem que, de início, julguei bem simples, mas que antes de me sentar ao computador e digitar as primeiras teclas, já estava completamente tomado pela tristeza dos fatos que havia presenciado horas antes. E em todos os meus anos como jornalista, essa foi uma das matérias mais tristes que escrevi. 

Por conta do dia primeiro de outubro – Dia Internacional do Idoso, instituído pela Organização das Nações Unidas – fui visitar algumas instituições e abrigos que cuidam de pessoas com mais de 60 anos. No fim do dia, entreguei ao meu editor uma reportagem sobre o cruel abandono das famílias, mas o que eu nunca consegui passar para o papel foi relato da dor de quem ainda vive, mas deixou de existir.  

É importante ficar claro, aqui, que não fui atrás de nenhuma grande denúncia de maus tratos ou de instituições que deixam idosos sem comida ou higiene. Não, pelo contrário, fui a locais onde todos são bem cuidados. Mas o que percebi foi a falta de brilho nos olhos daqueles esquecidos pela família, o sorriso usado como uma máscara para proteger o coração despedaçado de quem não recebia uma visita há mais de um ano. 

Em uma de minhas visitas, estava caminhando por entre corredores onde ficavam os quartos até que minha atenção foi capturada por um cântico baixinho que vinha de uma porta aberta. Lá dentro, uma senhora sentada na cama, olhava para fora da janela que dava para o bonito jardim do local. Ela cantava para si mesma uma música bonita que eu nunca soube qual era. Seu olhar perdido se transformou assim que ela me viu. Suas feições mudaram completamente para um sorriso sincero e surpreso. Ela me chamou por um nome estranho do qual não lembro mais, mas a cena que ocorreu talvez eu nunca esqueça na vida. Eu estava prestes a falar que ela se confundira, mas as palavras que saíram daquela boca sorridente me fizeram gelar a alma. Fitando meus olhos, a magra senhora me disse: “Eu sabia que você viria. Eu não acreditei quando os outros disseram que você nunca mais voltaria aqui. Mas você veio, meu filho, você veio me ver. Obrigada”.

Meu coração parou por alguns segundos. Então, só consegui dar um abraço naquela mulher de corpo frágil e aparência senil. Ela me contou algumas histórias de sua vida no asilo e me pediu para lhe escovar os cabelos antes de ir embora. Mais tarde, a enfermeira me explicou que o filho daquela senhora a deixou por lá cerca de cinco anos antes prometendo voltar. Ele só a visitou uma vez naquele mesmo ano e nunca retornou. 

Para quem pode ter menos compreensão, como crianças e idosos, a condição de abandono é, também, uma situação de sofrimento desmedido. A pessoa abandonada pode não saber os motivos que levaram ao afastamento, e isso gera um sentimento de angústia por um retorno que talvez nunca aconteça. Em idosos, esse sentimento se reflete de forma ainda mais avassaladora.

De acordo com o Boletim Epidemiológico de Tentativas e Óbitos por Suicídio no Brasil, publicado pelo Ministério da Saúde em 2017, o maior alerta foi a taxa de suicídio entre idosos com mais de 70 anos: foram registradas média de oito mortes para cada 100 mil pessoas entre 2011 e a data de publicação desse documento. Entre os principais os fatores que levaram a medidas extremas, foram apontados transtornos mentais como a depressão e o isolamento social. 

Desde aquela época, fico pensando no que estamos fazendo com os idosos que estão em nossa vida. Eu tenho avós. Eles são muito ativos e vivem juntos, e mesmo assim estão sempre com a família por perto e recebem  visitas  frequentemente. Eu mesmo estou quase todos os finais de semana na casa deles. Eu os amo e nunca vou abandoná-los. 

Espero que você, ouvinte, pense nisso, pois um dia todos seremos idosos. 






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