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Crônicas de Valéria Áureo
Postada por:  Redação (Carmen Lúcia Marini Vieira Júlio),  em  02/10/2019 às 23h51
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Ironicamente Iguais

02/10/2019 às 23h51

Valéria Áureo

Quando meus filhos me ofereceram um celular novo, foi a pretexto de eu ficar mais conectada com o mundo, e para que eu saísse do marasmo. Para me convencer, disseram-me que se se tratava de um aparelho que prometia milagres e tornaria a minha vida mais divertida. Eu, que sou boa de rezas, conversas e prodígios, aceitei na hora a ideia de andar conectada com um apêndice poderoso, que se encarregaria de todas as minhas preocupações. Eles diziam que a tal geringonça iria compensar a minha perda de memória, fato que os deixava bem inquietos e eu poderia recarregar a minha bateria de energias. Eu ficaria mais segura, disseram. Argumentei: se é para o meu bem, pensei, que mal tem? Aceitei!

  Eu tentei viver muito bem e em harmonia com um desses milagrosos aparelhos de última geração, colado ao meu corpo. Era um luminoso multimídia e tão diferente dos velhos e ultrapassados telefones, que eu me encantei. E eu esperava tudo dele e nada menos do que tudo mesmo. Eu o carregava de energia (e chamegos e boas vibrações, como passes de mágica) e o deixava dormir ao lado de meu travesseiro. Cor-de-rosa prateado, uma graça! Ali ele me embalava com vídeos de barulho de chuva, para estimular o meu sono e me fazia companhia. Mais perfeito? Eu queria! Que me despertasse com uma sinfonia clássica. Eu pretendia mais... Que ele fizesse café e torrasse pãozinho pela manhã, além de me acordar com um beijo na testa, depois de um emoji risonho. Narcísico, o aparelho assumiu autonomia e adorava fazer selfies; indiscreto, me acompanhava até mesmo no banheiro e se conectava a outros dispositivos em infiel Bluetooth. Não podia ver um espelho, que disparava um flash. Tocava música, me cumprimentava com um sonoro bom-dia e me enchia de mensagens otimistas e de autoajuda. Ele abria a minha agenda e me traçava a rota do dia. Falava em religião, e prometia milagres em correntes e mais correntes. Ele contava piadas, divulgava os encontros e programas de família, buscava os amigos distantes e reunia todos em conversas. Dava-me aula de inglês, francês, italiano. Aliás, qualquer idioma, até mesmo o mandarim, além de discutir política e me atualizar com todos os noticiários. Ele me avisava a hora dos remédios, a chuva, a temperatura, as condições do trânsito, a tempestade de areia em Dubai, quem casou e quem descasou. O celular me avisava quantos passos eu tinha dado no dia e me elogiava como ninguém. Organizava as fotos de família, fazia álbuns, vídeos e divulgava eventos. Contava fofocas de celebridades e resumia novelas, marcava e desmarcava encontros e dizia quem traía e quem era traído.

O celular tomou conta de mim, a tal ponto que eu parei de me preocupar com tudo que dizia respeito a mim mesma. Não anotava mais nada. Larguei tudo por conta dele. Descartei lápis, caneta, papel. Não me ocupava com mais nada. Esqueci-me de datas, nomes, pessoas, lugares, fatos. Bastava um clique e o mundo descortinava-se na tela luminosa e me oferecia todas as respostas. Tudo agora era por conta dele, transmutado na minha memória artificial e meu íntimo amigo. Um leve toque, um dedo arrastado na tela e a minha vida estava lá. Era um perfeito assessor de imprensa, um personal stylist, um fisioterapeuta a me indicar a postura na cadeira, um cardiologista a medir a minha pressão e a contar os meus batimentos cardíacos. Era conselheiro, psicanalista, orientador. Minha vida, meus passos, meus gostos, meus risos, meus segredos, tudo ficou aprisionado no celular, ou melhor, nas nuvens. Se eu quisesse saber alguma coisa de mim teria que consultar o celular.

Um dia, sem qualquer aviso respeitoso para o meu espírito, recebi a seguinte sentença: desculpe! Este arquivo não existe em seu dispositivo! Tentei entender aquela mensagem trágica, que me deixou sem rumo e destruiu o meu mundo perfeitinho. Tive que desligar e reconectar. Nova mensagem: não é possível baixar os arquivos, pois não há espaço suficiente na sua memória interna. Por favor, remova-os da memória de seu telefone e tente novamente. Fiquei desesperada. Em vão! O aparelho não suportou a carga da vida e sucumbiu.

O melhor que consegui foi rir de meus filhos, tão preocupados comigo, ao constatar que a máquina também tinha perdido a memória. Confortei-me em saber que todos nós, homens ou máquinas, temos o nosso prazo de validade. Estou pronta para me reprogramar. Voltei ao lápis e papel.

Autora: Valéria Áureo


 






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