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Crônicas de Santão
Postada por:  Geraldo Santão,  em  19/08/2013 às 10h41
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No tempo dos homens brabos
Amigos, o O IMPARCIAL é um jornal mais que centenário e levou a cabo, até aqui, a sua missão de contar a história da sua cidade, do seu tempo, da gente que fez e, talvez, da que não fez também, eis que tá pra existir uma cidade por onde não passaram parasitas, vagabundos que sempre viveram nas costas dos outros que, cada um à sua maneira, construíram com suor e pombensidade (que é o caso nosso, desde o tempo do Pomba) esta terra que aí está.

19/08/2013 às 10h41

Amigos, o O IMPARCIAL é um jornal mais que centenário e levou a cabo, até aqui, a sua missão de contar a história da sua cidade, do seu tempo, da gente que fez e, talvez, da que não fez também, eis que tá pra existir uma cidade por onde não passaram parasitas, vagabundos que sempre viveram nas costas dos outros que, cada um à sua maneira, construíram com suor e pombensidade (que é o caso nosso, desde o tempo do Pomba) esta terra que aí está.

                Mas tem uma história, ou melhor, um registro, que eu tenho certeza de que os amigos do meu tempo não gostariam que ele ficasse de fora. Lembro que estou falando de coisas que aconteceram há mais ou menos 60 anos atrás — o Canuto  Araujo estaria com 20 anos, já que ele está na casa dos 80, ainda que pareça ter muito menos, dada a sua natureza e talvez a agilidade que ela lhe permite, ou seja, ele parece muito mais jovem do que realmente é. Eu, nesta época, tinha 12 anos — foi quando vim fazer a famosa admissão ao Ginásio, aquela que já estão cansados de ouvir.

                Porém, antes de tudo (para não me esquecer), ontem encontrei na rua com ela, a minha leitora número 1, a Yara Furtado. Pois sem mentira nenhuma: a danadinha está com uma pele tão saudável que, definitivamente, ninguém consegue adivinhar-lhe os anos. Como sempre, me fez prometer que não pararia de escrever. E eu tornei a prometer.

                Bem, mas voltemos ao tema.

                Meus amigos, quando eu vim para o Pomba, em 1954, isso aqui não era essa “Casa da Mãe Joana” que é hoje, não. Todo mundo do meu tempo deve estar lembrado daquela briga entre o Jesuíno e o Marciano Campos (dois gigantes, por sinal). Por que brigaram, eu não sei, só sei que começaram ali perto da casa do Dr. Edmundo e quebraram quase todas as árvores novas que estavam plantadas avenida afora, e só foram parar, quando chegaram lá em baixo, onde era a casa do Dionísio do ônibus, e que hoje é apenas continuação da Av. Dr. José Neves. Por que pararam de brigar, também não sei; era um tempo em que os homens gostavam de resolver as pendências na base do pescoção, da porrada. Escreveu, não leu, o pau comeu. Era assim. E o mais engraçado de tudo: os dois eram amigos. E mais ainda: deram-se as mãos e continuaram amigos, depois da briga. Tem cabimento? Esse era o Pomba do meu tempo! Era o tempo dos homens que não tinham medo. Só eles são capazes de se cumprimentarem após uma ensanguentada briga.

                Mas eu hoje quero falar especificamente do Canuto Araujo, outro homem brabo que a maioria de vocês nem desconfia que ele é, porque do alto dos seus 80 anos, quase nunca ele chega a ser notícia. Porém, quando cheguei ao Pomba, ele era um rapagote. Mas vou logo corrigir o que eu disse, pois ele não era apenas um rapazote; era, já, um cidadão que se virava de qualquer jeito para ganhar um dinheirinho, eis que filho de uma professora cheia de filhos (D. Naim era a mãe dele, mas não sei se é assim — Naim — que se lhe escreve o nome). Sei, entretanto, que era braba também; um punhado de filhos e todos foram criados com rigor. E com sucesso). Assim foi que eu conheci o Canuto, como “o fazedor de raia da Avenida”. Exímio na arte de fazer uma pipa e aprumá-la. E, já naquela época, ele demonstrava que o seu trabalho duro e intenso seria reconhecido por mim e por todos os justos de bom senso. O leitor há de perguntar: “Mas que tipo de trabalho ele executa ou executou durante a vida?” Eu respondo sem pestanejar: quase todos. Ele fez de tudo na vida. E de tudo que fez, tentou fazer bem feito e rápido. Foi até funcionário dos Correios, mas, cá pra nós, Canuto nunca foi homem de ficar recebendo ordens. Nasceu para ser livre, para voar, teve coragem suficiente para tentar várias profissões. Se um ramo não dava certo, com o mesmo rompante e ousadia começava a fabricar tijolos, por exemplo, e, duro na queda, trabalhou como um burro de carga. Criou os filhos neste afã e eles saíram trabalhadores também. Filhos de peixe...                  

                Mas foi numa daquelas noites de 1950 que eu, invejoso por não poder ter um terno de linho S-120 — quem se atrevia a se vestir essa roupa mais cara da época eram poucos: lembro aqui o Zé Costa, o Hélio do Napoleão, o Rubens Malino, o Zéca  Mendonça, o Rubens Quintão, e pouquíssimos outros que lamentavelmente me esqueço agora. Era chique demais! Chegava sábado ou dia de baile, essa turma esnobava o resto da juventude.

                E foi num sábado à noite (normalmente as brigas aconteciam mais tarde, quando cada um já tinha “molhado o bico” numa bebida qualquer), que o Canuto, envergando o seu terno de linho todo passadinho e engomado, estava ali em frente ao Bar Copo Sujo, pensando na vida — sabe Deus em quê, pois já passava das 22h. E, curiosamente: depois das 22h todos nós poderíamos subir o morro do Colégio para ir à Caixa D’água; era ali que se localizava o bordel da cidade, e não posso, aliás, deixar de dizer que havia algumas mulheres bastante bonitas lá.

Não vou dizer quem, mas algumas damas da sociedade ficavam nas gretas das janelas para ver quem dos rapazes subia para a Caixa D’água.

                E o Canuto estava no pé do morro, quando chegou um negro famoso, espigado, bem vestido, roupa também branquinha... Ele se chamava Zé Teobaldo e era metido a valente. Eram muitos os que tinham medo dele, que, naquela época, já tinha todas aquelas gingas que a malandragem usava e usa ainda. E o negão (valha-me Deus!), caiu na asneira de provocar o Canuto. Ah, pra quê! O Canuto já caiu de porrada em cima do malandro que, pego quase de surpresa, pois acostumado a bater nos outros, e foram trocando porrada pela rua Padre Manoel abaixo: cai daqui, cai dali, esfola de lá, corre, chuta a cara... E foi descendo. E foi o próprio Canuto que me lembrou num dia desses: os dois foram parar lá embaixo na Água Limpa, ali onde morava o Zé Sidinei, perto da Biquinha da Água Limpa. Os dois pararam, ofegantes, nestas alturas já com uma plateia enorme, e Zé Teobaldo resolveu voltar, subir a Água Lima, calado, todo mundo olhando, e com certeza sabendo que, daquele dia em diante, iria selecionar melhor suas vítimas. Essa briga gozou de fama muitos anos, e agora vai se renovar.

                Mas esse Canuto gentil, tolerante, até, que vocês veem na rua hoje, isso é outra coisa, é outra versão. Isso é fruto da influência de uma mulher extraordinária chamada Mariana, mãe dos seus filhos, e sua companheira fiel a vida toda, uma mulher que não é qualquer um que tem não. Por isso eu gosto do Canuto, pelo homem sistematicamente trabalhador que ele sempre foi, pela sua personalidade marcante, e pela sua pombensidade. Canuto e Jesuíno, homens sem medo. Minha homenagem a eles.






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